ROSILENE  FONTES

Uma história da infância, 2016

 

Era uma vez, uma artista que há tempos desejava desenhar pássaros. Num dia de outono, observando as histórias de Leonardo da Vinci, descobriu que ele escreveu um livro intitulado Fábulas e lendas e que sua única lembrança da infância era um sonho com pássaros. Foi nessa época que Rosilene Fontes começou a contar Uma história da infância, narrativas em que a ficção mescla-se à suas memórias pessoais.

 

Nos trabalhos da artista, a apropriação, a colagem, a desconstrução e a reconstrução são procedimentos recorrentes. Nos seus desenhos, utiliza colagens realizadas anteriormente (com as Damas de Leonardo) como base para observação. Além das ações de adição, emerge as de apagamento como em Milhafre, desenho em que apenas a cabeça do pássaro permanece, chamando a atenção para o fato de que a discussão sobre a memória envolve o esquecimento. A apropriação também está presente em Ninho (instalação produzida a partir de um ninho encontrado na varanda da casa da artista) e em outras caixas-objetos como Casa árvore e Casa ninho.

 

Já, a série que empresta o nome à exposição engloba caixas-objetos construídas a partir do livro Fábulas e lendas. Rosilene seleciona histórias que mais se relacionam com a sua memória: da Cotovia, do Pavão, do Cisne, do Pelicano, da Águia, por exemplo. A artista reinventa seus títulos e conteúdos, utilizando-os como suportes para materializar outras narrativas, alinhavadas em outros tipos de páginas. Além das lendas citadas, a artista relata também a história da Garça através de um desenho-instalação que amplia suas caixas-objetos para o espaço expositivo.

 

Uma característica das fábulas e das lendas é que estas formas narrativas propõem uma moral ou um ensinamento. As colagens-fábulas de Rosilene são espaços fictícios que provocam outras leituras. E, então, para finalizar este texto, pode-se afirmar que nestas sobreposições de imagens, a artista propõe que os pássaros (ou os visitantes da exposição) voem por outros mapas, por outros livros e por uma (outra) história da infância.

 

Ananda Carvalho

Curadora e Crítica de arte

 

 

 

 

As ultimas nuvens azuis no céu da Alameda Principal, 2012

 

As ultimas nuvens azuis no céu da Alameda Principal é o inacreditável nome de um bar que realmente existiu, em São Paulo, na Alameda Itu, durante os anos 80. O bar e o seu nome, são uma lembrança e, como todas as lembranças, carregado de imprecisões e adendos afetivos que a memória traz. Também as arquiteturas representadas em minúsculas imagens, tem a memória como força motriz, ainda que a base seja uma impressão de fotos de viagem.

Por isso o posterior tratamento em lapis aquarelado e a dimensão da imagem: a imagem fotográfica como se apresenta, com toda a sua obscenidade de detalhes e cores, violentam a memória. A atmosfera nas miniaturas só a memória traz e que a precisão das grandes ampliações fotográficas sequer sonha alcançar.

 

Rafa Campos Rocha

 Artista Plastico

 

 

 

 

mapa afetivo, 2010 - 

 

Em primeiro lugar, imagens da natureza são desfiguradas para se obter simetria, como se, à maneira dos primeiros filósofos, fosse preciso fazer com que os seres se adequassem a uma ordem natural. O segundo momento rompe essa idéia de “harmonia pré-estabelecida” por meio da descoberta de uma ordenação do espaço que não corresponde à racionalidade, mas à “memória involuntária”. O resultado é um regresso à investigação da natureza, mas desta vez com a consciência do valor de uma sutil assimetria, que reabilita as imagens. Em suas formas simples e individualizadas, cada uma é como o sinal de uma idéia intuitiva e emocional de natureza, uma “idéia estética”.

                                                                                                                                                José Bento Ferreira

                                                                                                                                                       Critico de arte

 

 

 

 

 

paisagem e memória, 2004 - 

 

A arquitetura cromática de Rosilene Fontes

Uma janela, assim como uma pintura, situa-se em dois planos. Ambas estão em conflito permanente com a ordem espacial das coisas, que é tridimensional. Talvez seja por este motivo que sempre são comparadas entre si. Existe nelas uma negação permanente da objetividade, um jogo de aparências. Janelas são passagens entre o exterior e o interior, são estruturas geométricas que dividem o espaço. As janelas podem ser fechadas como diz Baudelaire, e se tornarem opacas. Metáfora do olhar, mas não de um olhar renascentista: a janela não deve ser mais pensada como modelo clássico e virtual da perspectiva, onde a tela aparece como um meio transparente. Quando as janelas passam a revelar a sua própria superfície, ao serem vistas como “opacas”, elas se tornam um modelo para a pintura moderna na medida que revelam a superfície da própria tela.

As janelas sempre sugerem um prolongamento para o espaço, uma totalidade que escapa da sua moldura, dos seus limites. A superfície do vidro está sempre presente, mas isto não impede que o nosso olhar atravesse este primeiro obstáculo na procura de um outro espaço. Mas é quando nos deparamos com uma janela turva que efetivamente temos consciência da sua presença objetiva e começamos a reparar melhor no ambiente em que nos encontramos. Neste caso as janelas não são mais entendidas como um dispositivo óptico neutro, mas como uma estrutura que molda o nosso olhar.

Grades, colunatas, canos de ferro são estruturas que podem se multiplicar e sempre nos levam a pensar numa totalidade que não está completa. Quando a pintura passa a incorporar estes elementos ela aparece como um recorte de um espaço infinito[1].

O espaço virtual é substituído por um jogo cromático, onde uma nova forma espacial calcada na superfície da tela surge a partir da interação das cores. Este jogo se efetiva no espaço real, onde a pintura aparece como fragmento do mundo. A janela se torna um esquema abstrato (grid) de ordenação das cores. Cria-se uma tensão permanente entre a geometria e a cor, pois os campos de cor relutam em ser subjugados por uma estrutura.

Rosalind Krauss afirma que a “grade” é um fenômeno recorrente na arte moderna, sua presença distingue a pintura moderna das outras épocas. A grade é uma estrutura “plana, geométrica, ordenada e antimimética”.[2] Curiosamente esta estrutura aparece pela primeira vez nos tratados sobre a fisiologia da cor do século passado. É uma forma que advém das janelas simbolistas como “um emblema da infra-estrutura da visão”, um recorte do mundo semelhante ao olhar. Um dispositivo não mais apenas óptico, mas pictórico. Através destas estruturas é possível reconstruir o espaço. Sua presença reitera o caráter construtivo de uma pintura, como no caso de Mondrian, que ao utilizar apenas linhas verticais e horizontais, consegue criar a ilusão de um espaço amplo que não pode ser representado por completo.

Rosilene Fontes enfrenta estes problemas com grande dignidade em sua pinturas: comedidas, sutis, revelam um grande potencial poético. A arquitetura lhe deu a força formal para construir, mas é através da pintura e da cor, que Rosilene cria uma visão singular, uma nova janela.

 

[1]

[2] Rosalind Krauss, op. cit, pg. 15

 

                                                                                                                                                     Marco Giannotti

                                                                                                                    Artista plastico,professor da ECA USP                

 

 

 

 

 

Olhares recortados, 2008

 

A discussão do espaço é fundamental na poética da artista plástica Rosilene Fontes. No seu trabalho de pintura, por meio de sucessivas camadas, instaura um universo visual em que as cores são articuladas de maneira geométrica, mas com um intenso movimento obtido por vibrações que impedem a uniformidade.

Quando realiza fotografias, a sua formação de arquiteta é denunciada na forma como seleciona as imagens, com especial devoção pelas linhas retas e massas de cor, assim como pelas combinações possíveis entre elementos semelhantes em termos de impacto e textura, como o reflexo num prédio espelhado e a fluidez da água ou do céu.

Um passo importante em sua jornada foi a associação dos aspectos mencionados em trabalhos nos quais, em propostas de montagem criativas, coloca lado a lado imagens fotográficas a pinturas. A questão da cor se torna central como expressões de um mesmo pensar sobre o significado dessas duas formas de representação.

Seus trabalhos mais recentes são pesquisas a partir do universo fotográfico em que faz uso da repetição de um referente para constituir superfícies azulejadas plenas de impacto e de mistério. Pode-se mergulhar nesse projeto pela observação atenta da figura originalmente fotografada e sua replicação ou no resultado final.

Os dois caminhos são igualmente importantes para penetrar numa estética caracterizada pela delicadeza da construção. A regularidade da elaboração, que evoca a padronagem de tecidos, traz um lirismo peculiar, ainda mais quando é enfatizado o uso dos espaços em branco.

Desse raciocínio, merecem especial menção as criações feitas a partir de fotografias em Paris. A Torre Eiffel aparece onipresente de várias maneiras. Com maior ou menor evidencia, ela cristaliza um pensar sobre o espaço que recorta e desdobra imagens oferecendo uma visão de mundo poética, plena e diferenciada.

 

 

                                                                                                                                                    Oscar D'Ambrosio

                                                                                                              Critico de arte, professor de artes visuais